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quinta-feira, 1 de novembro de 2018

Mulher nua

"Desfaço-me por entre papel 
feito de cetim e lírios. E apenas no chão frio da terra
procuro semear a Luz no meio da Liberdade profanada
por onde corre a linguagem da Natureza entorpecida.
Não há nada que me traga maior angústia
do que a certeza de nunca mais partir.
Por isso, embarco todos os dias nas folhas
sem sentido do meu pensamento,
com a fúria de quem procura encontrar-se
na confusão das coisas vazias." 

@SChainho




[Imagem: Female Nude, Salvador Dali, 1925]

terça-feira, 21 de novembro de 2017

A casa do meu avô

"Caminhamos na Luz eterna que nos aconchega
Sempre! Não tenham ilusões porque será sempre assim!
E, atravessando as memórias escondidas
atrás de uma figueira indomável e perpetuada pela alegria dos que a viram
medrar, a casa do meu avô vislumbra-se mais leve e sublime,
ainda que menos apetecível ao comum dos mortais.
Nela, há cheiro a madeira bolorenta, carcomida pela traça do tempo,
enquanto sarças ardentes e espinhosas corrompem a parede
revestida de cal e saudade. São como demónios em epifania,
numa dança fúnebre, a exortarem a falência das memórias
que nunca se extinguirão. Sempre que me sento no seu regaço,
ainda se ouve o tilintar das porcelanas e dos copos
que transpiram a vida e enfunam a minha alma de consolo.
Arrefeceram os dias, há erva fresca pelo chão…
         - É hora de partir!
Viro as costas para dizer Adeus, enquanto caem dos meus olhos
poemas urgentes sibilando a solidão. E há silêncios demorados a gritarem,
por entre as coisas mortas ali deixadas à sua sorte,
a eterna Luz que me aconchega."

@Schainho, Devaneios...


["old house westport"
Atist: thomas worthington whittredge, in http://artforsalediscount.com]

domingo, 22 de fevereiro de 2015

Tempo suspenso

"Enquanto cerrava os olhos e estalava os dedos das mãos, desenhava-te na minha pele e quebrava o tempo suspenso nas margens do mundo para sentir que o que fazia não era ligeiro, deixava marcas. O céu quase me abraçava e sentia-o como se me arrancasse do chão para me levar para lá da tentação, para me fazer acreditar nas emoções e no mar lânguido e sorvido dos rochedos acostados nas sombras de ti."

@SChainho, In Pensamentos


[Mulher a óleo, de Soledad Fernandez]

quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

FINITUDE

“Ficaram na pele um do outro até cegarem de emoção. Transpirava neles o desejo de amar até ao fim dos seus dias, mas recusaram-se a pensar no futuro e no fim dos dias.
No exacto momento em que o desejo chegou, responderam aos impulsos e entregaram-se com a intensidade de uma onda a invadir chão alheio. Levados pela emoção e carência do momento, trouxeram de mãos dadas a felicidade a rebentar pelas costuras e acreditaram que ela duraria, quem sabe para sempre, por entre as brechas da imperfeição.
E durou…
Ah, mas eles fizeram-na durar até ao dia em que a estrada se quebrou e o óbvio aconteceu – ele levou o calor do seu corpo para outro e ela espalhou o silêncio entre eles para abafar o inverno que crescia dentro dela.
“Estou farto de tudo”, disse-lhe ele com uma certeza mais abrupta do que um terramoto.
“E eu também…”, gritou ela para dentro do ar que custava a respirar e esperou que a calma e o descanso invadissem o espaço que era deles, para depois se apresentar como solução, mas já não havia solução. Ele acreditou já não haver solução.
Colocaram, ali mesmo, ele de uma maneira e ela de outra, um ponto e vírgula numa convivência “leve e saudável” e aos poucos mataram a necessidade que tinham de existir um pelo outro. Aquela mesma necessidade que, em tempos, encurtou a enorme e violenta distância que existia entre eles, no dia em que se cruzaram pela segunda vez. Na primeira, estavam demasiado ocupados a levar as suas vidas “perfeitas” e solitárias, num mundo imperfeito e sobrelotado.
Ela chegou pé ante pé, pegou na cabeça dele, encostou-a a ela e fez-lhe um último pedido,
“Olha por ti…Cuida-te, por favor.”
E foi nesse preciso momento que descobriram que o amor que sentiam um pelo outro e que deixaram escapar por entre as mãos, era mais do que isso, era para além disso, estendia-se para um tempo e um espaço que não souberam definir. Nunca saberão.
Ficaram assim, por breves instantes, agarrados como almas gémeas que não eram, enquanto os olhos grandes do felino lamentavam aquela perda. Dos deles, caíam lágrimas em catadupa que se fundiram com as dela antes de embaterem no chão agreste da cozinha. Levantaram-se, caminharam de costas voltadas, como devia ser, e seguiram caminhos opostos, sempre sem olhar para trás!     
E ficaram a pensar que aquilo não era amor… Não era não, era mais do que isso, era para além disso! Aquilo era a reinvenção da inocência e a consciência de uma morte anunciada. Aquilo era o fim dos fins e sabiam que nada mais havia a fazer. Não quiseram mais lutar. Nada mais havia para lutar. Ainda assim, fizeram como as árvores, morreram de pé, mesmo depois do ponto final."


In Pensamentos, @SChainho