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segunda-feira, 13 de junho de 2011

Fernando Pessoa e pessoas...

Assinala-se mais um aniversário de Fernando Pessoa (Lisboa, 13 de Junho de 1888 — Lisboa, 30 de Novembro de 1935). Palavras para quê... deixo-vos, como ele dizia, "com silêncio e poesia",

                                                                 deixo-vos com as dele, as palavras...

"É o fundo traço de histeria que existe em mim. Não sei se sou simplesmente histérico, se sou, mais propriamente, um histero-neurastênico. Seja como for, a vossa origem mental [heterónimos] está na minha tendência orgânica e constante para a despersonalização e para a simulação. Se eu fosse mulher - na mulher os fenómenos histéricos rompem em ataques e coisas parecidas - cada poema do Álvaro de Campos (o mais histérico de mim) seria um alarme para a vizinhança. Mas sou homem - e nos homens a histeria assume principalmente aspectos mentais; assim tudo acaba em silêncio e poesia…"

1.ªa parte do Poema "CHUVA OBLÍQUA", do ortónimo:


Atravessa esta paisagem o meu sonho dum porto infinito
E a cor das flores é transparente de as velas de grandes navios
Que largam do cais arrastando nas águas por sombra
Os vultos ao sol daquelas árvores antigas...

O porto que sonho é sombrio e pálido
E esta paisagem é cheia de sol deste lado...
Mas no meu espírito o sol deste dia é porto sombrio
E os navios que saem do porto são estas árvores ao sol...

Liberto em duplo, abandonei-me da paisagem abaixo...
O vulto do cais é a estrada nítida e calma
Que se levanta e se ergue como um muro,
E os navios passam por dentro dos troncos das árvores

Com uma horizontalidade vertical,
E deixam cair amarras na água pelas folhas uma a uma dentro...
Não sei quem me sonho...
Súbito toda a água do mar do porto é transparente

e vejo no fundo, como uma estampa enorme que lá estivesse desdobrada,
Esta paisagem toda, renque de árvore, estrada a arder em aquele porto,
E a sombra duma nau mais antiga que o porto que passa
Entre o meu sonho do porto e o meu ver esta paisagem

E chega ao pé de mim, e entra por mim dentro,
E passa para o outro lado da minha alma...

Bem Haja

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Maomé

Faz hoje precisamente 1379 d.C. que morreu um dos maiores líderes espirituais que a mundo já conheceu. Nascido em Meca (570), Arábia Saudita, teve uma infância um tanto atribulada com a morte dos progenitores e posteriormente o avô, com quem viveu alguns anos. Foi através deste que contactou directamente com a Caaba, um santuário daquela cidade-estado, no meio do deserto. A Caaba continha a Pedra Negra com símbolos espirituais (deuses e deusas) e desde cedo se tornou numa fonte de peregrinação. Distanciada de cultos pagãos, judeus e até cristãos, os promotores da Caaba tinham como único crente o deus Abraão, começando assim uma nova religião - o Islâmismo. Anos mais tarde, várias pessoas se juntaram a esta crença que cresceu de tal ordem, que Maomé teve de empreender uma fuga de Meca para a Medina (622), resultado de uma perseguição aos muçulmanos.

Deixo-vos com algumas frases/pensamentos/citações, ensinamentos sábios resultaram de uma experiência de vida única, vivida num tempo histórico também ele singular. Frases  que poderão suscitar a vossa curiosidade e quem sabe vontade de saber um pouco mais além:

"Ainda não encontrei a verdade!"

"A verdadeira riqueza de um homem é o bem que ele faz neste mundo."

"Deus criou a mulher de uma costela, de um osso torto. Se procurares endireitá-la, quebrará. Tenham pois paciência com as mulheres."

"A mulher foi feita da costela do homem, não dos pés para ser pisada, nem da cabeça para ser superior, mas sim do lado para ser igual, debaixo do braço para ser protegida e do lado do coração para ser amada."

"Quem quiser plantar saudade, trate de escaldar a semente.
Plante no solo bem duro, onde o Sol seja mais quente.
Pois se plantar no molhado, ela cresce e mata a gente."

"O mais forte é o que sabe dominar-se na hora da cólera."

"Suporta o mal com paciência e perdoa, pois há nele grande e verdadeira sabedoria."

"Ó meu povo, sede justos na medida e no peso e em nada lesai os outros, e não corrompais a terra".

"Deus não muda o destino de um povo até que o povo mude o que tem na alma".

"Sabei que a vida terrena nada é senão um divertimento e um jogo, e adornos e fútil vanglória, e rivalidade entre vós à procura de mais riquezas e filhos assemelha-se a vegetação que se segue a uma chuva".


"Ainda não encontrei a verdade!"

( A Caaba - centro do pátio da mesquita de Al-Haram, em Meca)


sábado, 14 de maio de 2011

A Escravatura no Brasil... a de ontem e a de hoje!

"Augustos e Digníssimos Senhores Representantes da Nação – Venho, de ordem de Sua Alteza Imperial, Regente em nome de sua Majestade o Imperador, apresentar-vos a seguinte proposta: Art. 1.º É declarada extincta a escravidão no Brazil. Art. 2.º: Revogam-se as disposições em contrário."

Palácio do Rio de Janeiro, 8 de Maio de 1888. Rodrigo A. da Silva


O dia 13 de Maio fica ainda marcado por momentos "Áureos" com a publicação de uma lei que selava, de forma oficiosa, o fim da escravatura, no Brasil. Dotada de uma educação um tanto ou quanto liberal e de uma vivênvia marcada pela dádiva aos mais necessitados, D. Isabel (princesa imperial do Brasil, trineta de D. Maria I), dotada de uma certa grandeza ou talvez ameçada por um estado à beira da insurreição, que assombrava o poder imperial e o mundo esclavagista, assina a Lei Áurea, tendo sido o seu mentor o Ministro da Agricultura, Rodrigo Augusto da Silva. Longe de consensos, foi igualmente de longe uma lei perfeita no sentido lato de abertura à cidadania, uma vez que negava a negros e mulatos o acesso à terra e moradia, mas foi igualmente sem dúvida uma ponto de partida e um passo gigantesco no trilho humanitário, em continente sul-americano.
Já passaram 123 anos, mas ela (a escravatura) permaneceu por muitos e arrastados anos. Lá, como em tantos pedaços deste mundo, ela ainda se faz sentir, mas de forma camuflada. Muitos trabalhadores rurais permanecem ainda sob o forte jugo de um patronato que não reconhece o seu trabalho de forma digna, sendo muitos deles remunerados muito abaixo do valor do seus serviços.
Não será isto um mal geral? Afinal a "escravatura" existe mesmo aqui ao lado, e Portugal é bem um exemplo disso. Ou seremos todos justamente remunerados pelo serviço que prestamos?


quinta-feira, 12 de maio de 2011

PEREGRINOS...

(vamosindo.blogs.sapo.pt)

Não há vontade, coragem e alegria de chegar ao seu destino, como a deles. Não há carro, manobra, curva, monte ou barreira que os faça parar. Não há gente que os faça largar o seu objectivo. Será a ilusão, a fé, a incerteza, a revolta ou a necessidade que faz caminhar?! Os motivos que os levam a caminhar com a "cruz" às costas, só eles os conhecem, só eles os podem confessar... São motivos sérios os que os movem, são verdades que tomam como únicas e insubstituíveis, são com certeza louvores e benesses que tardam talvez em chegar, mas que mesmo assim valem a pena o sacrifício. Trazem uma mão cheia de esperança e a outra cheia de histórias para contar. Chegam de todos os cantos, macerados, doloridos, "feridos" e extremamente exaustos`aos pontos de apoio, mas são admiravelmente valentes e determinados e chegam..., leiam só... chegam, aqui bem perto de nós (Minde - já, já bem perto de Fátima, do centro de culto mais procurado do país), envaidecidos e... a CANTAR. Ficam para sempre na memória de (des)crentes, porque não há outros como eles.
Um bem haja muito grande para todos os (que) "PER AGROS" (pelos campos) caminham em busca de um sentido...

quinta-feira, 5 de maio de 2011


(Desconhecido)

O que eu sou...
É maior do que a minha presença
É do tamanho das minhas forças,
Sou simples assim, é uma sentença…
Como a espuma do mar
Envolta num lago turvo de malvas recheado,
Sou um torvelinho silencioso
Nas margens desse mundo de sonhos acolchoado.

Vulto esquecido
Vivido, como sombra furtada
No limbo das arestas de uma dor saciada…
Sou por demais desejada
De um tempo que não é meu
De vozes que desconheço
De almas em desassossego…
Liberta de várias tentações
Sem pejo ou demagogia
Sou o que sou,
E o que sou não tem reservas ou limitações
É do tamanho da minha moradia

Sónia Chainho

sábado, 16 de abril de 2011

VOS ESTIS SAL TERRAE

Não me apetecia nada escrever sobre "isto", mas não me sai do pensamento. Não obstante a  direcção que tome, as notícias, os rios de tinta escritos, as imagens, tudo, mas tudo nos leva ao estado de crise a que o país chegou. Ai, não me apetecia nada falar sobre "isto"... é como se algo em mim se esgotasse, e também, diga-se bem alto, não quero esgotar mais tinta, pensamento e esforço a escrever/opinar sobre "aquilo" que todos opinam. Para evitar repetições e abusos de língua portuguesa (que agora, já é outra, pois já tem novo acordo. Até essa está em crise!), deixo-vos com as palavras de um douto.No meio das minhas leituras e memórias, trago-vos do passado longínquo histórico português, um homem que nos brindou no século XVII com boa escrita, pelo que espero que não caia nunca no esquecimento. Também, assim como eu, se encontrava DESACORÇOADO, não tenho outra palavra... é assim que me sinto... e traída com tudo "isto".

Meus caros, este Sr., este Grande Senhor, Padre António Vieira, do século XVII, é que sabia! No meio da sua enorme sabedoria, um dia foi pregar para os Peixes. Volvidos muitos anos, continua-se a pregar aos peixes, tal como ele fazia, sem resultados... Vá Srs., aprendam, aprendam com os vários séculos de História:

“Vós, diz Cristo, Senhor nosso, falando com os pregadores, sois o sal da terra: e chama sal da terra, porque quer que façam na terra o que faz o sal. O efeito do sal é impedir a corrupção; mas quando a terra se vê tão corrupta como está a nossa, havendo tantos nela que têm oficio de sal, qual será, ou qual pode ser a causa desta corrupção? Ou é porque o sal não salga, ou que a terra se não deixa salgar. Ou é porque o sal não salga, e os pregadores não pregam a verdadeira doutrina; ou porque a terra se não deixa salgar, e os ouvintes, sendo verdadeira a doutrina que lhes dão, a não querem receber. Ou é porque o sal não salga, e os regadores dizem uma cousa e fazem outra; ou porque a terra se não deixa salgar, e os ouvintes querem antes imitar o que eles fazem, que fazer o que dizem. Ou é porque o sal não salga, e os pregadores se pregam a si e não a Cristo; ou porque a terra se não deixa salgar, e os ouvintes, em vez de servir a Cristo, servem a seus apetites. Não é tudo isto verdade?"

«A primeira cousa que me desedifica, peixes, de vós, é que vos comeis uns aos outros. Grande escândalo é este, mas a circunstância o faz ainda maior. Não só vos comeis uns aos outros, senão que os grandes comem os pequenos. Se fora pelo contrário, era menos mal. Se os pequenos comeram os grandes, bastara um grande para muitos pequenos; mas como os grandes comem os pequenos, não bastam cem pequenos, nem mil, para um só grande. Olhai como estranha isto Santo Agostinho: Homines pravis, praeversisque cupiditatibus facti sunt, sicut pisces invicem se devorantes: «Os homens com suas más e perversas cobiças, vêm a ser como os peixes, que se comem uns aos outros.» Tão alheia cousa é, não só da razão, mas da mesma natureza, que sendo todos criados no mesmo elemento, todos cidadãos da mesma pátria e todos finalmente irmãos, vivais de vos comer!"
(Padre António Vieira, in Sermão aos Peixes)


Ora meditem sobre estas sábias palavras, e digam-me lá se não se sentem também traídos...

"Não é tudo isto verdade?"


sábado, 26 de março de 2011

Em Minde, há muitos artistas. Pequenos, mas grandes em criatividade!

Deixo-vos com algum do trabalho que se faz no âmbito do CLUBE DE TEATRO, em Minde. São uns verdadeiros artistas. Morangos com Açucar, esperem por eles! Força malta, agora são os castings para os Morangos! Vamos lá colocar-lhes muito, muito açucar!

LOCAL: Escola de Minde, no Pavilhão de Educação Física
HORA: 17h00, às Segundas-feiras

Vem e mostra-nos o artista que há em ti!

Ensaios paa a participação no casting dos Morangos com Açucar!!!


Zé&Tomás (Alunos de ED e Clube de Teatro)


Alguns exercícios de aquecimento







Dia de "Halloween"
Peça de Teato: "Jack O'Lantern"








Os nossos diabos!!!

De que massa se fazem os artistas...?

Às vezes troco umas impressões comigo ou para com os meus botões, e questiono-me sobre coisas complexas, outras bem simples. De que massa se fazem os artistas? Como crescem, como se dá forma a um artista? Será que se pode ensinar a alguém a ser um artista? Se partirmos da premissa que os artistas são pessoas que, em determinada altura da sua vida ou durante toda ela, assumem uma vontade, uma coragem e uma atitude férrea de mostrarem algo dentro de si diferente e grandioso, sem realmente deixarem de ser quem são, então existem por aí, sendo que na maioria das vezes nã sabemos onde estão. Até que vem um dia que mostram verdadeiramente de que massa são feitos os artistas.
Obrigada por acreditarem em vocês e nas vossas capacidades. Foram magníficos! 
O sucesso foi garantido, estão todos de parabéns!
Agora, é tempo de meter mãos à obra, pois novas surpresas vêm aí!

(Os dias antes: preparação do projecto - Estátuas Sem Movimento - DISNEY)

(Já nos camarins da Futurália/2011, FIL - Lisboa  Os nervos à flor da pele...!)

 

(A nossa Minnie...)

(A Fada madrinha... ou será a Sininho?!)

(O Capitão Gancho portou-se bem ao lado da Pipi das meias altas)

(A Cinderela também marcou presença!)

(A Branca de Neve também foi, mas sem os Anões.)

( A Pocahontas trouxe o ar fresco da Natureza.)

(A Fiona ali estava, cmo todos nós, num reino bué, bué longe...)

(Na Biblioteca da Escola Secundária de Alcanena)

quinta-feira, 3 de março de 2011

«De uma maneira geral, os livros sabem ao cheiro do café» Sam Savage

Sempre gostei de café, não me imaginava a viver ser ele, não vivo sem ele.  É, acima e para além de tudo, uma questão histórica. Os livros, esses, serão para sempre um modo de estar e de ser, são água e oxigénio, são vida, corpo e sangue. Antes de os ler, cheiro-os,  desde o momento em que lhes toco. Tal qual uma mãe que acaba de ter o filho nos braços, pela primeira vez.
O café, consegui deixar de o beber, apenas o saboreio,  mas não consigo abandoná-lo de vez. Por vezes, acompanho-Te enquanto bebes café, não só pelo prazer de TE ver a ter o prazer de o beberes, mas também porque TE roubo sempre uma colher, para o saborear...Desta feita, na minha exaurida existência, dou-me a estes três grandes prazeres (entre outros...); passei a cheirar o café, em vez de o beber; passo mais tempo CONTIGO, em vez de o gastar apenas comigo; e os livros, ah os livros... continuo a cheirá-los enquanto os saboreio. Não troco nenhum dos três, por nada!

Café
Com Livros
E Amor

Foto de Larissa de Assis


sábado, 19 de fevereiro de 2011

“Ai professora! Este filme foi um desassossego!” (Paula in Filme do Desassossego)


FILME DO DESASSOSSEGO

“Ai professora! Este filme foi um desassossego!”,

foi assim a primeira reacção de uma aluna (Ensino Secundário Nocturno) ao filme… Ainda que alguns possam ter dormido, outros odiassem, outros ainda fossem indiferentes e para muitos incompreensível, o objectivo foi alcançado e a alquimia encontrada.
Letras, palavras e sensações tudo em imagens soltas e desfragmentadas, tal qual Pessoa, ele próprio. O seu Desassossego esteve presente em todo o cine-teatro e desassossegou-nos a todos. Eu ainda me sinto inebriada…
                          
“A minha vida é como se me batessem com ela.” Fernando Pessoa

“Um homem pode, se tiver a verdadeira sabedoria, gozar o espectáculo inteiro do mundo numa cadeira, sem saber ler, sem falar com alguém, só com o uso dos sentidos e a alma não saber ser triste.” (O Livro do Desassossego, FPessoa)

Hoje apeteceu-me divagar, inspirada por quem já se foi, Pessoa, o próprio...

 "Afastei-me com passos largos numa noite longa e indiscreta. Uma noite que me fez lembrar um passado presente num futuro que se estranha. A chuva batia-me na face como se fosse a primeira vez, e sabia-me bem. Aqueceu-me o corpo, selou-me a alma. O silêncio das ruas escorreitas e empedradas acompanhava-me. Um cansaço de dor fez-me aligeirar a vontade de seguir em frente, nada havia para descobrir ou para conhecer. Sei hoje que os caminhos não têm nome, só cor e cheiro… Se tivessem nome, não se chamavam caminhos, seriam outra coisa qualquer. Por isso, aproveitei cada passo, na penumbra da noite fria e lustrosa.

Sinto o que não sei e dou por mim na amurada dos sentidos, por entre a aguarela da vida, a carregar sofregamente a alma do mundo. Deste mundo que não é meu e não me pertence. Pensamentos estranhos e incógnitos perfuram a estranheza do que sou. E não sou nada. Pelo menos, não quero ser nada.

Sinto que o que não sinto me faz falta. E faz-me falta sentir isso que não sinto, para que possa sentir-me na pele do que sou, quando não sou eu que estou a sentir.

Nada faço que me traga à luz do dia. Tudo oiço, tudo vejo, tudo cheiro, nada encontro. Ente o meu Ser e o Mundo existe Tudo. E tudo é tanto e tão vago, tão sombrio e incestuoso, e ao mesmo tempo, tudo é tão distante.

Sofro uma dor que não é minha, mas também não abdico dela. Por entre as folhas caídas de um livro, encontro-me nua e perdida. Nunca estou onde estou e o cheiro que trago comigo, não é meu, mas sempre o tive. Temo que não seja muito diferente da hera, toco com todo o corpo em tudo e dificilmente abdico. Não o sei fazer, nunca me preparei para o fazer…

Quando passo por entre a multidão, sinto todas as crenças, vozes e dores dentro mim. E a multidão vai sozinha, sem alma, sem gentes. Só eu vou acompanhada com o turbilhão de pensamentos e, a alma que é deles, é minha também.

Sonho com a mesma intensidade com que vivo. Se sonho demais, não tenho a culpa, pois ensinaram-me a viver demais.

Se eu pudesse tocar no mundo, acariciava-lhe os sentidos. Despertava nele uma compaixão avassaladora pelos seres animados, não os humanos, que esses são feitos de pedra rija, mas pelos animais que, não sendo feitos de carne humana, trazem a humanidade dentro de si.

Por vezes, tenho sede de ser outro e todos ao mesmo tempo. Não ganho nada com o tempo que está parado, apenas rugas e cicatrizes do vento que o acompanha. Por isso, só quero que ele caminhe para bem longe e me deixe sossegada, neste desassossego de alma."

SChainho


                                                                    Fernado Pessoa