Entre, o palco é seu!

Entre, o palco é seu... Seja bem vindo!

quinta-feira, 2 de abril de 2015

Prelecções

e há homens que sonham em ser pais
e ocupam o tempo nos tribunais
e fazem da vida uma intriga
e gastam saliva a falar do mundo

pois eu busco sombras entre os pinhais
a terra batida e aquecida
eu procuro a areia gasta e o sol de Inverno
eu procuro o meu corpo entre os teus braços
e consigo ver a brandura nos teus olhos lassos
eu dou-me ao mar como as gaivotas se dão à terra
e nunca vou por onde vão os demais

eu levo aos ombros uma carga de sinais
e sou a esperança deles serem meus
eu sou o entusiasmo próprio de alguém
que consegue ver um pouco mais além
eu sou a vida a ser vivida
e sou o nada para lá do cais

absorvo o tempo e aguardo…
eu vim ao mundo foi p’ra me ver
e por vezes sinto dor e febre de viver
e por vezes sinto os Abismos a correr nas veias
e quero-me em toda a parte
dar-me ao vento e à leviandade

como uma mão que tacteia na escuridão
e que empurra a minh’alma para a imensidão
um dia sonhei como os homens que querem ser pais
mas tornei-me no próprio limbo das águas furtadas
hoje sou o pó dos caminhos revoltos
e o som das chuvas triviais

[Abril, 2011]

@SChainho In Pensamentos


[Imagem retirada dethousandimages.com, Lisboa]

quarta-feira, 1 de abril de 2015

Improviso-te, todos os dias...

Nunca dormia sem espreitar a lua através da janela do quarto. Um vidro fosco e frio separava o rosto macerado pelo tempo e a respiração entrecortada do odor matinal das urzes que se apoderavam da parede da casa. Baixou a cabeça, como quem pede perdão, e ficou a pensar no que queria ter dito e não foi capaz:
“Das folhas em branco que busco no teu desejo, apenas preencho as que ficaram nos silêncios que nos aguardam até à eternidade. São elas que me lembram os riscos que corro quando te afasto para nunca mais te improvisar. E sim, improviso-te todos os dias porque sei que não podes ficar.”

@SChainho In Pensamentos [Devaneios nocturnos...]

[Foto retirada de: http://fotos.sapo.pt/divine]

quinta-feira, 26 de março de 2015

Destino

“[...] depois de beber da tua loucura fiquei a pensar na forma contida
como entraste na linha pura do meu destino
eras a sombra oculta que rompia na verdade nua
eras a voz sonante que rimava com a porta do meu corpo
eras a manhã que trazia poesia sem dono
agora que estás mais presente do que o verbo amar
não desistas de chegar ao fim na estrada do meu aconchego [...]”

@SChainho, In Pensamentos

[Foto worldpress.com, 2011]

sábado, 21 de março de 2015

Todos os lugares

"não sei o que faça
com os todos os lugares que não conheci
e nas ruas da minha cidade
vejo-os nas portas dos cafés, no chão,
nos beirais das casas onde mora a saudade

nesses mundos distantes onde os teus passos ecoam
há forças, tons avermelhados e sonhos de verdade

vozes de sombras em sobressalto
mostram-me esses lugares que não conheci
e relembram-me os passos dados
nas margens do que acredito

todos os lugares que não conheci
são frutos silvestres que busco nos teus lábios

e não sei o que faça;
se os reviva cá dentro só comigo
como se partissem na caravela alada que perdi
ou se os lance no turvado mar onde aprendi"

@Sónia Chainho In "Entre o Sono e o Sonho", Vol. VI, Chiado Editora, 2015.
(Antologia de Poesia Contemporânea)
[Foto: O mar em Todos os Lugares, Lisboa/Nov, 2013]

quinta-feira, 19 de março de 2015

Pai, amor perfeito

"Há uma chama que nunca se apaga,
Um abraço que sempre se eterniza,
Uma presença que marca ao longe,
Uma voz que nunca se cala.

É no silêncio que nos encontramos,
Na busca incessante e perene de um aconchego contido
Nas palavras que não dizemos, não precisamos

É sempre ontem, hoje e amanhã,
Não tem hora, dia e mês
Não tem cor, religião, nação ou razão
É sempre hoje, sempre

Porto de abrigo à espera de um navio ao longe,
Fome deserta que nunca se finda
Coração da terra, amor perfeito

És diálogo inacabado e sempre vivo
És o resumo do mundo, és princípio e fim
És tu o poema que nunca dorme
Para lá da vida que se entranha em mim"

@SChainho

[Retirado de Fotografodigital.com.br, Pai e filho no pôr do Sol]

quarta-feira, 18 de março de 2015

Devolve-me, por favor!

"Fui à varanda sorver a calmaria da noite e o ar adocicado que emanava do fundo da rua. Ao longe, um café antigo recebia gente estranha que entrava e saía, num permanente corrupio. Tal e qual um enfermo que se vai habituando ao hospital, por saber que já não consegue viver fora dele, eu tentava desesperadamente esquecer-me desta doença incurável e aguardava que a sorte te trouxesse até mim para que, antes do fim, pudesses devolver-me.
Entraste pelo quarto, sem bateres, e passaste a pertencer ao meu mundo. Apossaste-te dos meus sentidos e partilhaste a pureza e a verdade que havia nas sombras do presente. Transpirava em ti o amor avassalador que nunca percorremos.
Caminhaste na minha direcção. Acompanhava-te um choro copioso e demorado e assim, sem meios para te levantares, deitaste a cabeça sobre o meu peito. Uma vontade férrea esculpiu o meu rosto nos teus caminhos e a tua mão, impregnada com a tua doçura, tocou-me levemente como se não me quisesse abandonar. Limpaste sofregamente a face molhada e saíste na noite, sem deixar rasto. Naquela noite, sem saberes, levaste-me contigo… Devolve-me…
Devolve-me, por favor!"

@SChainho, In [Obra em construção... Próximo devaneio]

[Imagem retirada do Blog Frutos e Raízes]

quinta-feira, 12 de março de 2015

Poros da lua...

“às portas da morte deixaste a seiva da loucura
permanecer no espaço aberto da estrada que eras tu
e ainda assim continuámos silenciosamente a percorrer
a verdade através dos troncos agrestes da nossa memória
dessa casa que nunca habitaste mas que era nossa
restou a beleza do retrato dos filhos que nunca chegaram
hoje tenho a certeza que nada do que me deste era puro
pura sim era a forma como te ressuscitava em cada noite
em que vinhas sem medo por entre os poros da lua
para me fazeres acreditar que eras meu quando eu era tua (…)”

@SChainho In Pensamentos


[Retirado de minilua.com]


segunda-feira, 9 de março de 2015

Finisterra


"Nos caminhos da sorte, vejo-te na muralha dos desejos
Atravessando pontes silenciosas numa linha incontida
Fazes falta aos que não acreditam, aos ultrajados da vida
Transportas na bagagem solitária sonhos em sobressalto
E almas ancoradas ao abrigo de um barco em finisterra
És assim, feito de sombra e de luz, cetim e basalto"

@SChainho, In Pensamentos

                                                                 [Retirado do Blog RisingCities Espanha, Galicia]

segunda-feira, 2 de março de 2015

Viver das palavras e amá-las...

 Abençoada alegria que me chega pelas palavras que eu tanto amo...
"SChainho é uma das autoras de “Entre o Sono e o Sonho”, da Chiado Editora, que vai reunir centenas de poetas contemporâneos no Casino de Lisboa, dia 21 de Março".



domingo, 22 de fevereiro de 2015

Tempo suspenso

"Enquanto cerrava os olhos e estalava os dedos das mãos, desenhava-te na minha pele e quebrava o tempo suspenso nas margens do mundo para sentir que o que fazia não era ligeiro, deixava marcas. O céu quase me abraçava e sentia-o como se me arrancasse do chão para me levar para lá da tentação, para me fazer acreditar nas emoções e no mar lânguido e sorvido dos rochedos acostados nas sombras de ti."

@SChainho, In Pensamentos


[Mulher a óleo, de Soledad Fernandez]