Entre, o palco é seu!

Entre, o palco é seu... Seja bem vindo!

quinta-feira, 3 de novembro de 2016

O Espelho

“Não era a vaidade que a atraia para o espelho, 
mas o espanto de descobrir-se.” (Milan Kundera)

E naquele dia, descobriu-se como nunca antes se descobrira
Levantou-se, sem vaidades,
Manhã submersa, clara, cinzenta e fria 
e não fez perguntas, 
nem ensaios, nem rodeios ou escolhas... não podia!
A mesma rotina, as mesmas horas, a mesma certeza
E, assim, de braços dados com o azulejo frio da parede
e o olhar constante de quem nada tinha para dizer,
defrontou-se apenas com aquele gigante, 
dividido em fragmentos eternos e penetráveis 
invadindo a alma em golfadas de silêncio,
a que chamamos vida e que pesa, pesa muito...
Um peso em forma de fronteira a marcar os limites 
da possibilidade humana entre países desconhecidos 
E, logo ali, a estação intermédia do tempo em que mergulhava
Afigurou-se-lhe como se fosse uma pluma 
a cair numa serenidade cruel e inverosímil sem chão 
certo para a acolher.
Agora, de cada vez que olhar para o espelho,
descobre o amor escondido e são,
nas metáforas da carne e da pele que nunca conheceu.
SChainho
(18/10/2016)

[Retirado de: http://alemdamidia.info]

domingo, 7 de fevereiro de 2016

"Florestas Submersas"

A noite,
a braços com a terra
filha de um deus maior, 
morre na tua boa...
É na imensidão de ti 
que a pureza se entranha
na pele porosa, onde
os sentidos desfalecem...
A noite, irmã confidente
de manhãs inacabadas,
de onde renascem,
para além do horizonte
"Florestas Submersas"!


https://www.youtube.com/watch?v=yzrNZW2clBY


("Florestas Submersas", no Oceanário em Lisboa)

quinta-feira, 17 de setembro de 2015

Nunca te esqueças, querida mãe!

Como foi que chegámos até aqui, minha querida mãe? Como foi?
Como foi que o tempo te transformou na rocha invencível
Soletrada entre os abismos, onde o sonho nunca se findou?
Diz, por favor, como atravessaste as agruras
Dos caminhos invernosos que nunca recusaste percorrer?
Traz-me essa cor de alegria, feita de cristal, que vais
Espalhando nas ruas sinuosas que completam o teu nome.
Ensina-me como enfrentaste a ameaça dos dias cinzentos
Às portas da tua fortaleza…
Deixa-me essa marca do destino que te fez
Mulher entre as mulheres para que eu possa sempre
Renascer entre o pó das cidades adormecidas.
Entrega-me essa força das palavras
Que as horas vão dissipando pelos corpos das searas.
Diz-me que ainda gritas por mim, quando saio para a vida,
Para que eu possa transformar-me na túnica que te cobre de incenso…
Não te esqueças, mãe
Nunca te esqueças de me lembrar

Como foi que chegámos até aqui!

SChainho (17, setembro, 2015)


domingo, 21 de junho de 2015

"Um dia branco"

"Um dia branco
Dai-me um dia branco, um mar de beladona
Um movimento
Inteiro, unido, adormecido
Como um só momento.

Eu quero caminhar como quem dorme
Entre países sem nome que flutuam.

Imagens tão mudas
Que ao olhá-las me pareça
Que fechei os olhos.

Um dia em que se possa não saber."
SMBAndresen


sábado, 13 de junho de 2015

Um dia Grande

ontem foi um dia Grande,
sim, ontem foi um dia muito Grande
foi o dia das imagens, da pureza do olhar
que não tem palavras, da verdade, 
da crença, da certeza dos recomeços,
da bondade e das recompensas

um dia em que a grandeza dos afectos,
a força dos abraços e a beleza dos sorrisos
não teve limites, não teve amarras
o dia crepitou na pele, semeou coragem,
revelou sabedoria, cresceu a valentia...

ontem, foi o dia do transbordar da alma,
da luta e do combate contra as amarguras
a caírem no poente, foi o momento 
de caminhar por entre as muralhas
a esmagar a insegurança do futuro,
o culminar de um percurso aquecido 
pelo sangue do poema que se fez

sim, ontem eu vi claramente
as vossas faces orientadas para a luz
que iluminará  esse longo percurso
quando vierem as próximas encruzilhadas

Bem hajam!
[Com amor e carinho, para L&M]


[Imagem retirada de: http://frasesteengirl.blogspot.pt]

segunda-feira, 18 de maio de 2015

Personagens improvisadas

foi no rescaldo do dia que fizeste aparecer
o ruído das horas a estalar dentro do peito
sempre essa forma incontida de dizer
a sorrir que a vida é para lá de elegante
nesse instante renasceu uma fonte
quase inexistente de instinto humano
que se repartiu por entre a beleza da razão
e a inteligência refinada da emoção
tal e qual duas personagens improvisadas
sem nunca ultrapassar essa sublime fronteira
ficámos assim a braços com o distante
figuras de proa numa simplicidade contagiante...

SChainho, In Devaneios NoCturnos

[Arlequim e Colombina. Retirado de http://www.culturamix.com/]

quarta-feira, 22 de abril de 2015

Há-de vir o dia...

tão grande e pesado é o sonho que trazes na algibeira
que cresce por entre as tuas mãos abertas ao sol nascente
enquanto percorres um caminho de pedras atapetado
é pela manha que trazes o vento agarrado à tua vontade
esse desejo dilatado e transparente de eclodir
por entre as ondas do mar e de navegar em liberdade
onde o sossego te aguarda como uma mãe a um filho
há-de vir o dia em que embalado pelo calor humano
que encontras na curva sinuosa dos silêncios
suspensos num corpo desconhecido
afastarás os mil cansaços que te acompanham
e guiado pelo farol de uma sobranceira felicidade
caminharás em passos largos ao teu encontro
ainda que eu morra sem que tu chegues
há-de vir o dia…

@SChainho, In Devaneios Nocturnos

[Costa alentejana, 2014, autoria @SChainho]


terça-feira, 21 de abril de 2015

Fica difícil...

Fica difícil não atravessar a porta por onde
Encontro o deserto sombrio da tua presença
Fica difícil o cair da noite e as brumas da memória
A tecer as muralhas do horror que crescem ao teu redor
Fica difícil o caminho escuro que percorro
Na estranheza do mundo perdido em que te tornaste
Fica difícil livrar-te desse oásis corrupto
Onde a fartura da mentira rompe a serenidade e a leveza
Fica difícil fazer germinar a crença da bondade
No meio da virtude que desconheces
Fica difícil mascarar a impostura com a verdade
Onde a podridão permanece como se fosse um sonho
Fica difícil não afastar a dor e a vergonha
De um dia ter habitado o castelo de papel
Onde a maldade cresceu e o abandono não teve fim
Fica difícil…

@SChainho, In Devaneios Nocturnos

[Retirado de: http://www.themescompany.com]

domingo, 19 de abril de 2015

Uma terra sem mapas...

“Meu amor, estou à tua espera…
Quanto dura um dia quando está escuro? E uma semana? O fogo apagou-se. 
Tenho muito frio. [...] Morremos.
Morremos ricos com amantes e tribos, gostos que experimentámos, corpos em que penetrámos e em que nadámos como rios. Medos em que nos escondemos… 
Quero tudo isto marcado no meu corpo. Nós somos os verdadeiros países. 
Não as fronteiras marcadas em mapas com nomes de homens poderosos. 
Sei que virás e me levarás para o palácio dos ventos. É tudo o que quis. Passear nesse lugar contigo e com amigos. Uma terra sem mapas [...].”

(In O Paciente Inglês)

[Mar Português, da minha autoria @SChainho]



segunda-feira, 13 de abril de 2015

Ofereço-te os beijos

"na sombra do teu olhar há uma forma perfeita
de dizer que o mundo é para ser sentido sem dor
palpitam desejos translúcidos de forças íntimas  
a cair pelo céu aberto da esperança que te aconchega

despido do medo entregas-me esse teu jeito
de amar como as árvores em tempo de solidão
e agarrada às palavras que vagueiam nos teus braços
ofereço-te os beijos suspensos na minha poesia
que espalho sem pudor nas noites em subversão" 

@SChainho, In Devaneios Noturnos 

[Imagem retirada de: http://ericarufato.blogspot.pt]