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terça-feira, 21 de novembro de 2017

A casa do meu avô

"Caminhamos na Luz eterna que nos aconchega
Sempre! Não tenham ilusões porque será sempre assim!
E, atravessando as memórias escondidas
atrás de uma figueira indomável e perpetuada pela alegria dos que a viram
medrar, a casa do meu avô vislumbra-se mais leve e sublime,
ainda que menos apetecível ao comum dos mortais.
Nela, há cheiro a madeira bolorenta, carcomida pela traça do tempo,
enquanto sarças ardentes e espinhosas corrompem a parede
revestida de cal e saudade. São como demónios em epifania,
numa dança fúnebre, a exortarem a falência das memórias
que nunca se extinguirão. Sempre que me sento no seu regaço,
ainda se ouve o tilintar das porcelanas e dos copos
que transpiram a vida e enfunam a minha alma de consolo.
Arrefeceram os dias, há erva fresca pelo chão…
         - É hora de partir!
Viro as costas para dizer Adeus, enquanto caem dos meus olhos
poemas urgentes sibilando a solidão. E há silêncios demorados a gritarem,
por entre as coisas mortas ali deixadas à sua sorte,
a eterna Luz que me aconchega."

@Schainho, Devaneios...


["old house westport"
Atist: thomas worthington whittredge, in http://artforsalediscount.com]

quinta-feira, 15 de junho de 2017

Nos nossos jardins


"Hoje, a erva escuta, quando me lembro de ti.
Faz barulho, a minha mente, porque sei que não há nada
mais desconcertante do que a ausência. Trazes no semblante
a forma perfeita de aprender e de ser.  
Dentro dessa ausência, refugiamo-nos à espera da Primavera.
E há flores no teu jardim. Esse, nunca deixas esmorecer,
mesmo nos dias mais fragosos.
Hoje, não há nada que possas fazer que te distraia
da sinceridade que bebes
em cada trago da vida. E corremos através dos dias,
trespassando de forma grotesca e acirrada
a saudade de um reencontro sem pressas.  Sem pressas,
as flores que transpiram dentro de ti
lembram-me como a grandeza tem nome. O teu.
Não há forma mais correcta de dizer o quanto a falta é uma falta,
senão quando estamos sós. Tão sós e imperfeitas, 
as duas se complementam;
– A coragem e a força.
São ambas tuas, fazem parte do teu jardim.
Nunca estamos sós. Nunca, minha amiga.
Nunca estamos sós, porque há sempre flores
nos nossos jardins."

[@schainho, para Sandra Brites, 15/Junho/2017]

[Imagem retirada de: http://flower-wallpaper.org]




terça-feira, 24 de janeiro de 2017

Bagagem

"há na bagagem um cheiro a terra
que surge do nada, sempre que piso as madrugadas
cada um tem a sua e estão sempre cheias. as bagagens, claro!
porque as madrugadas não podem estar cheias se pensarmos
que é na noite que nos entregamos cegamente às ilusões
e ao abandono ao qual nos afeiçoámos.
depois de um passeio enviesado pelas nesgas das ruas
vazias de amor, surgem-me na memória os rostos nunca
esquecidos dos que imploraram pela vida
com os olhos fartos de tanta angústia. Sombras de um calendário
que se entranha de forma abrupta na carne aquecida pelo sol.
como não sei bem o que ando por ali a fazer
e as pernas devolvem-me a Liberdade que muitos
nunca chegam a conhecer
pego na chave de casa e dou-lhe o direito de me trazer
a Felicidade. Avassaladora e sem arestas."
SChainho@
[Foto retirada de: lounge.obviousmag.org]

quinta-feira, 3 de novembro de 2016

O Espelho

“Não era a vaidade que a atraia para o espelho, 
mas o espanto de descobrir-se.” (Milan Kundera)

E naquele dia, descobriu-se como nunca antes se descobrira
Levantou-se, sem vaidades,
Manhã submersa, clara, cinzenta e fria 
e não fez perguntas, 
nem ensaios, nem rodeios ou escolhas... não podia!
A mesma rotina, as mesmas horas, a mesma certeza
E, assim, de braços dados com o azulejo frio da parede
e o olhar constante de quem nada tinha para dizer,
defrontou-se apenas com aquele gigante, 
dividido em fragmentos eternos e penetráveis 
invadindo a alma em golfadas de silêncio,
a que chamamos vida e que pesa, pesa muito...
Um peso em forma de fronteira a marcar os limites 
da possibilidade humana entre países desconhecidos 
E, logo ali, a estação intermédia do tempo em que mergulhava
Afigurou-se-lhe como se fosse uma pluma 
a cair numa serenidade cruel e inverosímil sem chão 
certo para a acolher.
Agora, de cada vez que olhar para o espelho,
descobre o amor escondido e são,
nas metáforas da carne e da pele que nunca conheceu.
SChainho
(18/10/2016)

[Retirado de: http://alemdamidia.info]

domingo, 7 de fevereiro de 2016

"Florestas Submersas"

A noite,
a braços com a terra
filha de um deus maior, 
morre na tua boa...
É na imensidão de ti 
que a pureza se entranha
na pele porosa, onde
os sentidos desfalecem...
A noite, irmã confidente
de manhãs inacabadas,
de onde renascem,
para além do horizonte
"Florestas Submersas"!


https://www.youtube.com/watch?v=yzrNZW2clBY


("Florestas Submersas", no Oceanário em Lisboa)

quinta-feira, 17 de setembro de 2015

Nunca te esqueças, querida mãe!

Como foi que chegámos até aqui, minha querida mãe? Como foi?
Como foi que o tempo te transformou na rocha invencível
Soletrada entre os abismos, onde o sonho nunca se findou?
Diz, por favor, como atravessaste as agruras
Dos caminhos invernosos que nunca recusaste percorrer?
Traz-me essa cor de alegria, feita de cristal, que vais
Espalhando nas ruas sinuosas que completam o teu nome.
Ensina-me como enfrentaste a ameaça dos dias cinzentos
Às portas da tua fortaleza…
Deixa-me essa marca do destino que te fez
Mulher entre as mulheres para que eu possa sempre
Renascer entre o pó das cidades adormecidas.
Entrega-me essa força das palavras
Que as horas vão dissipando pelos corpos das searas.
Diz-me que ainda gritas por mim, quando saio para a vida,
Para que eu possa transformar-me na túnica que te cobre de incenso…
Não te esqueças, mãe
Nunca te esqueças de me lembrar

Como foi que chegámos até aqui!

SChainho (17, setembro, 2015)


domingo, 21 de junho de 2015

"Um dia branco"

"Um dia branco
Dai-me um dia branco, um mar de beladona
Um movimento
Inteiro, unido, adormecido
Como um só momento.

Eu quero caminhar como quem dorme
Entre países sem nome que flutuam.

Imagens tão mudas
Que ao olhá-las me pareça
Que fechei os olhos.

Um dia em que se possa não saber."
SMBAndresen


sábado, 13 de junho de 2015

Um dia Grande

ontem foi um dia Grande,
sim, ontem foi um dia muito Grande
foi o dia das imagens, da pureza do olhar
que não tem palavras, da verdade, 
da crença, da certeza dos recomeços,
da bondade e das recompensas

um dia em que a grandeza dos afectos,
a força dos abraços e a beleza dos sorrisos
não teve limites, não teve amarras
o dia crepitou na pele, semeou coragem,
revelou sabedoria, cresceu a valentia...

ontem, foi o dia do transbordar da alma,
da luta e do combate contra as amarguras
a caírem no poente, foi o momento 
de caminhar por entre as muralhas
a esmagar a insegurança do futuro,
o culminar de um percurso aquecido 
pelo sangue do poema que se fez

sim, ontem eu vi claramente
as vossas faces orientadas para a luz
que iluminará  esse longo percurso
quando vierem as próximas encruzilhadas

Bem hajam!
[Com amor e carinho, para L&M]


[Imagem retirada de: http://frasesteengirl.blogspot.pt]

segunda-feira, 18 de maio de 2015

Personagens improvisadas

foi no rescaldo do dia que fizeste aparecer
o ruído das horas a estalar dentro do peito
sempre essa forma incontida de dizer
a sorrir que a vida é para lá de elegante
nesse instante renasceu uma fonte
quase inexistente de instinto humano
que se repartiu por entre a beleza da razão
e a inteligência refinada da emoção
tal e qual duas personagens improvisadas
sem nunca ultrapassar essa sublime fronteira
ficámos assim a braços com o distante
figuras de proa numa simplicidade contagiante...

SChainho, In Devaneios NoCturnos

[Arlequim e Colombina. Retirado de http://www.culturamix.com/]

quarta-feira, 22 de abril de 2015

Há-de vir o dia...

tão grande e pesado é o sonho que trazes na algibeira
que cresce por entre as tuas mãos abertas ao sol nascente
enquanto percorres um caminho de pedras atapetado
é pela manha que trazes o vento agarrado à tua vontade
esse desejo dilatado e transparente de eclodir
por entre as ondas do mar e de navegar em liberdade
onde o sossego te aguarda como uma mãe a um filho
há-de vir o dia em que embalado pelo calor humano
que encontras na curva sinuosa dos silêncios
suspensos num corpo desconhecido
afastarás os mil cansaços que te acompanham
e guiado pelo farol de uma sobranceira felicidade
caminharás em passos largos ao teu encontro
ainda que eu morra sem que tu chegues
há-de vir o dia…

@SChainho, In Devaneios Nocturnos

[Costa alentejana, 2014, autoria @SChainho]